27 de dez de 2011

réveillon

NOTAS SOBRE O TEMPO (II): digressão sobre o réveillon


O tempo é o próprio homem. A raiz do tempo, seus calcanhares, reside na atividade vital humana que, ao erguer a vida social sob a dialética de objetivação do ser e apropriação do ser objetivado, confere sentido humano à passagem, às transformações naturais, na medida em que estas se transformam em referência para os acontecimentos sociais.

A ontologia da sociedade burguesa é aquela em que o tempo – meio da ação humana -, se converte em ente metafísico que subsume os homens ao seu poderio soberano. É quando assistimos à passagem de uma condição de tempo do homem para aquela do homem do tempo, onde aquele nada mais é que veículo da auto-reprodução autista deste. A supremacia do tempo – tempo do capital – coincide, em nível diretamente proporcional, à supressão da humanidade dos indivíduos. A ontologia do tempo burguês é a fratura do ser, o despedaçamento do sentido humano, posto que os homens nada mais são do que mônadas agremiadas pelo signo imperativo do tempo.

A experiência contemporânea do tempo é aquela que ridiculariza a secular prática dos antigos chineses de ler as horas nos olhos dos gatos[1]. A cornucópia dos negócios não permite tal extravagância. “Tempo disso, tempo daquilo; falta o tempo de nada” (Carlos Drummond de Andrade). E deste modo nos aferramos à cronologia, reunimo-nos em separado sob a égide do relógio. Acotovelamo-nos para a celebração de velhas ilusões da quitanda da fé espetacular novamente repetidas, não obstante, no íntimo, isto vir cada vez mais rodeado de um cinismo entreguista de que só resta deixar “a vida me levar”.

Este ardil opera pela sutileza e brutalidade do valor de troca em sua vitória sobre o valor de uso. São representações engendradas pela forma-mercadoria, em sua sanha de tudo quantificar, numa época onde a primazia do parecer arrasta todas as medidas do ter. Na sociedade do olhar, ser é um delírio romântico, uma teimosia dos que insistem em não jogar o jogo (assim os acusam!), mesmo que as regras se mostrem francamente mortuárias.

Assim, em Times Square (NY), a multidão de corpos disformes, como animais vigiados e normatizados nas avenidas Sétima e Oitava, sob o afago dos cassetetes da polícia, leva essa celebração bestial a píncaros de alegria: muita gente, muita pirotecnia, muita luz e imagem, o tempero dos indiferentes que estão lado a lado sem estarem juntos. Um nadifúndio do espaço banal que é ícone da representação espetacular, forma-mor para as demais festas mundo afora, “que representa a não-comunicação em meio à massa de pessoas que se aglomera”[2]. Happy new year! aos brados por dois eternos minutos!

Mas o nada deste nadifúndio, definido pela mídia como “o lugar” para se estar no réveillon, se estende para outros domínios festivos não em função do nada explícito de um pré-determinado lugar vazio para a multidão se aglomerar, mas se estende pela linguagem solipsista do valor de troca, que agremia sob o signo da separação, pelos requintes de mercadorias luxuosas e agradáveis, pela mercadoria “cultura” que parece dar um ar de distinção àquilo que é sempre a mesmidade do valor. O fast food da cultura está servido a todos os gostos, na medida em que o mesmo sabor intercambie as diversas mesas e festins, deixando os convivas de todos os matizes bem satisfeitos com o reificado banquete mercante. Confira, a título desta deliciosa façanha espetaculoísta, o maravilhoso réveillon 2012 do Partido da Causa Operária (PCO), com baile de gala ao som de banda especializada em música latino-americana, sorteios de preciosos iPod’s, câmeras fotográficas e demais aparelhos eletrônicos, sem falar nos whykis e espumantes sofisticados e toda sorte de bebidas, show pirotécnico e tudo o mais no Salão Nobre do Clube Atlético, pela bagatela de trezentos reais o convite. Não há saída: a classe operária vai ao paraíso e os poetas estão cobertos de razão em seus versos: “Consumir é viver, conviver é sumir” (Paulinho da Viola e Marcus Vinícius de Andrade)...

Esta aglomerada solidão (Tom Zé) é regulada pela ação totalitária do tempo, que se apresenta como esfinge para quem nós ou desvendamos sua lógica voraz ou seremos entregues à sua insaciável fome. Não por acaso, com o instinto de lucidez contra estes jogos de morte, os revolucionários parisienses da Comuna, ao tomarem a capital francesa, atiravam pedras contra os relógios públicos da cidade, algo que, em verossimilhança, fez a juventude parisiense no maio de 68 apedrejando as vitrinas num implícito sinal de recusa da lógica da mercadoria.

O réveillon, como festividade que remete à celebração de um tempo novo e melhor, pode guardar outro sentido à medida que alimentar o sentimento da necessidade de superação radical da nadificação do tempo então presente para o tempo de nada que nos falta, mas que está inscrito no horizonte histórico de possibilidade conferido pela própria sociedade burguesa, ou seja, o tempo da liberdade, dos não imperativos econômicos para um homem não mais economizado, tempo da preguiça como entendera Lafargue, tempo consoante ao mundo dos homens. Neste sentido, até o momento hodierno, a hora é de celebrar a derrota, a necessidade de derrota do tempo burguês e de seus ditames espetaculares, numa verdadeira ode à morte que permita conferir à vida a condição de soberania. Todo réveillon que não testemunhe a consagração da vida como imperativo terá sabor de réquiem.

São Luís, 26 de dezembro de 2011

Vinícius Bezerra



[1] Baudelaire. Pequenos poemas em prosa [O spleen de Paris]. São Paulo: Hedra, 2011, p. 89.

[2] Carlos, Ana Fani Alessandri. “Novas” contradições do espaço. In: DAMIANI, A.; CARLOS, A. F.; SEABRA, O. (orgs.). O espaço no fim de século: a nova raridade. São Paulo: Contexto, 2001, p. 69.



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Vinícius Bezerra
http://tempodecritica.blogspot.com

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