21 de set de 2012

Salve, João Mohana


Pe. João Mohana - foto: Reprodução




Se a eternidade existe...

Ubiratan Teixeira

(publicado originalmente na coluna "Hoje é dia de..." no caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão, em 21/09/09)






Não sei por que, de repente, assim do nada a história se agitou dentro de mim. E vai ver que nesta comunidade de memória curta nem ninguém se lembre mais da personagem: a quem devo muito da energia que ainda me agita, criatura de gestos franciscanos (apesar de ter se consagrado carmelita).
Não tenho uma noção muito exata de como cheguei junto a João Mohana; nessa época ainda apenas Dr. João Mohana: pediatra. O que seguramente sei é que foi por intermédio do Teatro, num projeto ousado envolvendo o arcebispado de Dom José de Medeiros Delgado e a Ação Social Católica.
Foi aí pelos anos 1950. À época os cristãos engajados discutiam a mensagem de João Paulo VI e do meteórico João XXIII. Dom Delgado, por sua vez, sacudia os alicerces da Igreja local com uma mensagem social acima dos interesses políticos subalternos e uma visão cristã acima do terço e da venda de indulgências: enquanto o leigo Mohana cuidava do social-espiritual, o arcebispo reestruturava o social-político-econômico, que os santos e seus líderes enquanto pessoa humana também comiam, consumiam as coisas materiais e, sobretudo, careciam de dinheiro - sem economia organizada não haveria nem céu, quanto mais um bom cristão. O militante ordenado sacerdote criava cooperativas para a zona rural; o leigo iluminado movimentos de jovens ligados à arte. O embatinado fundava a Universidade Católica do Maranhão, a Rádio Educadora do Maranhão, REMAR, que seria a primeira rádio direcionada para a educação, no país, enquanto o militante de bata branca estruturava movimentos de cineclube e elencos de teatro. Dom Delgado criava bancos e grandes estruturas educacionais e culturais; João Mohana preparava as cabeças que orientariam os corpos nessa grande aventura libertadora.
Foi nesse clima que cheguei junto a João Mohana e sob uma invocação sedutora: a Igreja ia fazer Teatro. Não o teatrão tradicionalmente alfazemado e lantejoulado das santas beatas em militância, aleluia; ou as encarunchadas paixões do Rabi da Galiléia tão a gosto do clero local. João Mohana estava me convocado para "encarar" um apostolado via dramaturgia a ser exercido de cima de um tablado armado sob um barracão que estava sendo erguido no quintal do Palácio Arquiepiscopal (que é esse o apelido desse casarão monumental a cavaleiro na Avenida Maranhense, residência oficial de todos os dignitários da Igreja Católica no Maranhão), um teatro que falasse da espoliação do povo de deus, da usurpação pelo poder temporal dos direitos mais sagrados conferidos ao homem pelo mandato divino, dos elementares direitos canônicos da espécie que tinham sido deslembrados pelos exploradores rotundos, que de forma gananciosa sugavam as últimas gotas de sangue da massa na orfandade.
Começamos os ensaios sob suas vistas num espaço de sua residência na rua Formosa. Nosso trabalho era muito democrático as soluções "pressentidas" eram exaustivamente discutidas, propostas de postura questionadas, cada personagem minuciosamente avaliado por todos numa didática de direção difícil de se ver no teatro local, mesmo hoje, creio. Depois de alguns dias de ensaios no papel do Sonho, do drama romântico de E. de Paula Gonçalves, A Comédia do Coração, Mohana me colocou na direção do espetáculo: "Você é o diretor, falou escandindo as palavras, parece que ainda o escuto hoje. Fique à vontade que meu irmão vai entender perfeitamente esta substituição que não é minha mas inspirada pelo Espírito Santo (Já era, então, essa mistura evangélica de comerciante e pastor revelado negociando em nome do filho de Deus). O Kalil é um bom cristão; não vai por obstáculos a esta decisão revelada; aceite." Aceitei.(Quem dirigia o espetáculo era seu irmão Kalil). E assumi não só a dura tarefa de reger apenas com a intuição pelo estético, de levantar um espetáculo com pessoas que nunca haviam pisado num palco de representação teatral, antes, como a de conservá-lo entre os raros amigos do meu estreitíssimo círculo de fraternos e verdadeiros amigos: sem fazer disso proselitismo ou trampolim para realizações pessoais. Desse tipo de amizade rara, lapidada cada vez melhor com o passar do tempo, loucamente amada e permanentemente renovada.
Ficava anos inteiros sem ver João Mohana fisicamente; apenas sentindo sua presença personalíssima e sempre marcante, lendo suas lições de humanidade, tentando entender o tipo de alquimia que o Santo Espírito usou para modelar essa forma marota de raciocínio cristão. Quando fui vê-lo depois e sua chegada de Viamão já ordenado sacerdote eu passava por uma dessas inúmeras "crises" existências que me jogavam amorosamente no macio colo de um incesto engabiteiro e ele nos deu, a mim e à parceira, um antídoto que já deixava prever como seria o comportamento sacerdotal do desconcertante pregador das homílias das 17 horas na Catedral Metropolitana (hoje já não existe nem o incesto e nem a crise: graças a João Mohana, Gabrielle Marcel e São Francisco de Assis, essa forma de viver e se solucionar solidificou-se numa fórmula consciente de liberdade comportamental, uma certeza inalienável de ser e existir no mundo formalizado).
Fizemos teatro ao longo de muitos anos, crescemos na forma original de nosso convívio amigo, até que num dia de 1967 nasce o caçula dos Teixeira. O primogênito tinha sido batizado por Don Delgado, o segundo pelo padre Macedo, pároco de Colinas, berço da mãe. Sem nenhuma premeditação ou compromisso formalizado, de comum acordo decidimos convidar João Mohana para ser o responsável por aquela alma pagã junto ao Criador.
Hoje, com a ampulheta do tempo à minha frente sinto que Mohana está à minha espera do outro lado da vida e certamente essa verdade me trouxe aquela fase de minha vidinha de volta.
E isso me envolve com uma saudável alegria de eternidade.




Um comentário:

  1. Parabéns, e obrigado, Bira, pois venho realizando pesquisa sobre João Mohana e este seu artigo foi oportuno!

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