15 de jan. de 2015

15/01/15 Sete meses de saudades, querido Bira!


Este LR com o queridaço Ubiratan Teixeira. Amooo essa foto!
Amanhã seria Dia de... Ubiratan Teixeira e não será, ele se foi.
Hoje, 15/01/15 faz sete meses que papai nos deixou e, cavocando meus alfarrábios dei de cara um treco que escrevi para ler em sua missa de sétimo dia que, por razões outras - alheias ao meu querer - não lí e repasso a vocês. Se será publicado, não sei. Não escrevi pensando nisso, apenas escrevi e hoje presto minha homenagem a esse cara chamado Birão que não teve vergonha de se fazer muito junto a muitos, que escreveu sem medo de escrever, que bebeu sem pensar que, um dia, a saúde cobraria seu imposto imposto goela adentro, mas deixa pra lá que lá onde ele deve estar por certo anda biritando com alguma anjinha moleca escondida dos querumbins e almas iluminadas ou, quem sabe, dedilhando em alguma máquina de escrever n'algum matutino celestial uma nova crônica esculhambando algum santo que deva ter pisado em seus calos ou, ainda, imaginando um conto contando de algum peralta peralteando em alguma nuvem escondida.
É isso, o escrito vai abaixo.

Abraços,
Bira Filho (eita! porque não escrevo Ubiratan Filho?)

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Não, papai não morreu...
Hoje bateu a saudade. Então, lá vai o texto que nunca mostrei para ninguém e que escrevi para ler na missa de sétimo dia (mas o padre não sabia e nem tive tempo de lembrar!).

Saudade dói. Aperta o peito. Mas não há jeito. Vou vivendo... Nosso herói é imortal. Embora com fraquezas e defeitos, o seu exemplo é imortal. Ubiratan Teixeira não passou pela vida à toa. Amou e foi amado. Apaixonou-se. Casou-se. Teve filhos, que lhe deram netos, que lhe deram bisnetos. E tudo o que ele construiu não está sobre fundações de concreto. Está aqui, agora, dando continuidade a tudo o que ele ensinou. Ensinamentos dos quais nos orgulhamos. Esse homem baixo, atarracado e um tanto barrigudo, de voz firme e doce, de gesto carinhoso, esse homem que me ensinou que a honestidade vale mais que dinheiro. Ensinou que caráter e dignidade ninguém pode nos tirar ou comprar. Ensinou que ser correto é amar o nosso próximo (e como amou esse homem...). Ensinou que ajudar não deve ser só um ato de bondade, mas de humanidade. Esse homem, com suas velhas histórias, ensinou que nessa vida estamos só de passagem e que tudo o que aqui fizermos será contabilizado. Por conta disso, ele mesmo dizia: não faça mal a ninguém. Conselho muito bem ouvido e aprendido por quem viveu para ver e ouvir.

Esse meu herói era austero, brincalhão, galanteador, ativo, cheio de saúde. E quem diria? Esse mesmo homem nos deixou assim, de uma hora para outra, sem que pudéssemos supor que ele já havia cumprido sua missão aqui. Olhando para trás, consigo compreender o quanto ele construiu. Ele atravessou, com as roupas nas mãos, um rio para impedir que um pontão lhe roubasse a amada enquanto muitos somente olhavam e deixavam o rio carregar o misto sem terem ação e, olhem, ele nem sabia nadar. E olha só no que isso tudo deu, quase 60 anos de união ora capenga, ora avassaladora. E ele batalhou por cada pedaço de pão para que os filhos tivessem o que comer, ensinou o que deviam aprender, escreveu o que deveriam ler, representou o que deveriam ver, tirou leite de pedra para que estivéssemos aqui hoje celebrando seus quase 83 anos de ensinamentos. Sim, porque não perdemos o pai, o avô, o bisavô, o amigo. Ganhamos um anjo, que deixou seu exemplo para nós. Família. Esse homem significa família. Todos os domingos era certa a reunião de todos. Nem sempre na mais perfeita harmonia, mas estávamos ali, juntos. E quando ele começava a contar a histórias dos tempos de bandalheira pelas zonas da vida, das cachaçadas pelos botecos sombrios escondidos pelos becos da vida, dos tempos em que ser repórter de oposição era ter couro duro pras chibatadas dos macacos, dos companheiros de luta e de esbornias, das viagens viajadas pelos cantos do mundo e de vivência que até hoje não conseguimos visualizar de como deve ter sido, os olhos dele brilhavam. Ao contrário do que muitos podem imaginar de uma família juntada de índio e de português, esse herói era próximo, presente, carinhoso sem muitas frescuras de gestos muito simples. Simplicidade essa que nele era marca registrada, do chinelo de dedo, da bermuda surrada, da camiseta cavada, do alforje a tiracolo e ele apenas vivia seu dia-a-dia vivendo com atitudes cotidianas. Aprendi com ele que o melhor lugar para uma boa conversa é a porta da rua onde todos o conheciam sentado ora lendo, ora bisbilhotando o ir e vir da “gente do povo” que lhe carinhava com um simples olhares ou, o que ele detestava, com um “boa tarde poeta” e com ele aprendi também a não fechar as portas para ninguém.

Era assim que as mais diferentes pessoas chegavam à sua casa, sem bater, sem pedir licença, apenas entrando porta adentro, para desespero de Dona Mary, e se empoleirando no sofá macio ou na cadeira de balanço, que ele também não gostava, pra papear das coisas do dia com o “poeta” ou fuxicar daquele político que prometia e não cumpria, ou daquela “nigrinha” que quebrava asas pro vizinho nas furças do marido bobalhão...

Falo de Ubiratan Pereira Teixeira como herói não por ele ser inatingível fisicamente, mas por ele significar um exemplo tão forte de vida. Para muitos, ele era o seu Bira, para outros o Birão, o Pai, o Amigo... Para mim, ele era o meu pai querido. Aquele a quem podia tirar dúvidas, conversar, abraçar, falar sobre os mais diversos assuntos e ouvir os mais diversos conselhos. Um homem cujos valores vão além do acúmulo de riquezas materiais. A educação dos filhos nem sempre rígida, o convívio com os netos um tanto distante se não fosse o seu Filipe – neto de predileção imensurável, paixão desde o primeiro olhar que lhe tornou encher o coração no lugar do pai que não se fez filho que sonhava – mas sempre cheio de histórias e alegrias. Era duro quando tinha que ser, passava sermão, brigava e, ao mesmo tempo, era atencioso, carinhoso e sincero. Mudar a opinião daquele homem era quase impossível. Defendia sua família até as últimas conseqüências. Tudo o que ele construiu ao longo de sua vida está aqui, reunido. Somos todos orgulho dele, tenho certeza. E ele não seria ninguém sem a sua fortaleza, minha mãe. Sabemos da importância de um na vida do outro. Não conseguíamos enxergar um sem ver o outro próximo. Bira e Mary. Agora, mãe, nos restam a força, o amor e a união para continuarmos a vida. O que sinto agora, e creio que deve ser um pouco do que cada um sente, é a saudade. Dá um vazio no peito chegar àquela casa e não encontrá-lo, não dizer: a benção, pai. E ouvir a resposta: Deus te abençoe, filho. Não tinha o abraço e o beijo que lhe roubava na cabeça de cabelos brancos e macios era meu grande ganho, um beijo roubado cheio de calor humano. Ficam as lembranças dele, do homem, do herói, do contador de histórias, do educador, do amigo, marido, pai, avô e bisavô... Do ser humano. Fica o amor que sentimos durante a convivência que tivemos com ele. Fica o exemplo de quem viveu sem ter medo do amanhã, de quem aproveitou cada segundo dessa vida e deixou um legado invisível aos olhos das estatísticas. Deixou sua história, seus ensinamentos, sua devoção pela família. Pai, o senhor continua vivo no meu coração e assim será para sempre, até o dia do nosso reencontro.

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