7 de mai. de 2012

Sobre o abandono da Praia Grande

Uma prefeitura para a Praia Grande*

Ceres Costa Fernandes (Mestra em Literatura e membro da Academia Maranhense de Letras)



Prédios centenários, lampiões, azulejos, pedras de cantaria, becos cheios de mistérios, frades de pedra, ruas calçadas de cabeças de negro, escadarias, a Casa das Tulhas, a história da cidade viva, o passado acontecendo a cada momento em que se dobra uma esquina: isso é a Praia Grande. Na Praia Grande reencontramos a feição da nossa cidade, assim como a viram e descreveram João Francisco Lisboa e Aluísio Azevedo, e também - pelo binóculo invertido da imaginação -, Josué Montello, em Os Tambores de São Luís.

Fazer compras de delícias regionais na Casa das Tulhas inclui o ritual de provar camarão seco descascado de Tutoia ou de Primeira Cruz, acompanhado de um punhado de farinha Biriba ou de Carema, e ainda comer castanhas de caju assadas ou torradas com sal, sob o olhar complacente do barraqueiro que nos estende, de bom grado, o provador - é o costume. Qual o são-luisense que nunca fez isso?

Do lado de fora, nas barraquinhas de gostosuras típicas vindas de restaurantes afamados, come-se de pé, em pratos de plástico, arroz de cuxá, galinha-da-terra ao molho pardo, caruru... Huun... Recomendo aos sem frescura. Nas lojinhas, doces de espécie, redes, vestidos artesanais, lembranças do bumba-meu-boi, artesanato em palha, madeira e barro e mais um mundaréu de coisas a serem descobertas.

A busca de entretenimento vai das apresentações folclóricas na Praça Nauro Machado ao Cine Praia Grande - o dos festivais de filmes premiados e das mostras dos curtas dos cineastas locais; do ateliê de xilogravura do mestre Airton Marinho ao museu do azulejo; do museu dos dinossauros às exposições da Casa de Nhozinho; dos shows de chorinho e reggae nos barzinhos aos Cafés Literários e Saraus no Odylo. Não há dia sem festa no Reviver.

Ah! Então falamos do paraíso... Não. Infelizmente há o reverso. Sinto muito apresentá-los a ele: ruas afundando, paralelepípedos soltos, bocas de lobo quebradas pela ação de veículos pesados; barracas sem a padronização exigida, cobertas de plásticos azuis, de higiene precária e sem a devida vigilância, a espalhar lixo na área. Camelôs, mendigos, mau cheiro dos esgotos a espalhar podridão e baratas; falta quase absoluta de banheiros públicos químicos ou não, o que provoca a invasão e destruição dos banheiros das casas de cultura, sem estrutura para a demanda; casarões em ruínas ou mal conservados; escadaria da Ladeira do Comércio desabando; calçadas esburacadas, e, o pior, pontos de vendas de drogas disfarçados em casas de show. Meninos deitados nos bancos em frente ao Anfiteatro Beto Bittencourt, cheirando cola. A droga rolando solta nos shows repletos de colegiais da Praça Nauro Machado, em frente ao trailer da polícia. Casas de cultura fechadas aos domingos e feriados por falta de segurança. Não há amor de nativo nem admiração de turista que aguente.

A água vem dia sim, dia não. Às vezes dois dias não. Por causa da falta d´agua, restaurantes tradicionais já se mudaram de lá. Qualquer pane na rede elétrica assusta, pois a rede é subterrânea e, às vezes, ficamos dias sem luz. Todas as atividades são suspensas, até a Cemar encontrar o ponto com defeito e efetuar o conserto.

Quem ama São Luís ama a Praia Grande. E é grande dor ver o abandono em que vive o local. Por causa da singularidade desse espaço e dos duzentos quarteirões tombados (epa! um trocadilho!) é que conseguimos o título de cidade Patrimônio da Humanidade. Deveria ser o nosso diferencial, a nossa riqueza, o nosso relicário.

Neste ano de 2012, festejamos os 400 anos, e São Luís sediará a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) pela segunda vez. A primeira foi em 1995. Coincidentemente, nesse ano, foi instalada a "prefeitura" da Praia Grande, no exercício de Eliezer Moreira como Secretário da Cultura do governo Roseana Sarney. Essa é uma ideia que vem martelando minha cabeça, desde que passei a ser cidadã da Praia Grande - pensei até que fosse minha...

Fui até Eliezer obter informações sobre a "prefeitura". Soube que ela funcionava como uma coordenação com o objetivo de identificar os problemas da Praia Grande e encaminhá-los aos órgãos competentes, de qualquer esfera de poder, com propostas de solução e parceria. Funcionava na casa que é, hoje, o ateliê do artista plástico Airton Marinho, que também abrigava um pequeno ambulatório para socorros urgentes. Ao que apurei, obteve excelentes resultados, mas só durou um ano.

Comemorações dos 400 anos, SBPC à porta, Praia Grande nos estertores, pedindo socorro, por que não se unem todas as instâncias de poder e reeditam essa ideia?



*Publicado no jornal O Estado do Maranhão, edição de 06/05/2012

Fonte:http://imirante.globo.com/oestadoma/noticias/2012/05/06/pagina219465.asp

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